Entre a fuga do senador, os questionamentos ao Supremo e a disputa por novas lideranças, o conservadorismo brasileiro enfrenta uma questão que vai muito além das urnas.

Por Rodini Netto

Há cinco dias, escrevi neste espaço que a responsabilidade da direita não terminava nas urnas. Naquele artigo, defendi que nenhuma liderança poderia estar acima dos princípios e que a oposição, qualquer que fosse o resultado eleitoral, precisaria demonstrar maturidade, responsabilidade e compromisso com o país.

Não imaginava que, tão rapidamente, os acontecimentos colocariam essas convicções à prova.

A derrota de Flávio Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, seguida de sua inesperada saída do Brasil, alterou o cenário político. E me leva a uma reflexão que considero necessária, inclusive sobre aquilo que escrevi anteriormente.

Se existe uma mea culpa a fazer, não está nos princípios que defendi, mas em talvez não ter distinguido com suficiente clareza a direita política do pensamento conservador. A primeira reúne partidos, interesses e lideranças. O segundo precisa sobreviver a todos eles.

E o momento exige exatamente essa distinção.

Uma fuga e muitas perguntas

Na segunda-feira, 26 de outubro, Alexandre de Moraes determinou que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes e permanecesse no Brasil. A decisão, tomada no âmbito de uma investigação criminal, foi apresentada pelo senador como uma tentativa de intimidação.

Flávio afirmou que não pretendia deixar o país e que assumiria a organização da oposição ao governo reeleito.

No dia seguinte, entretanto, surgiram as informações de sua saída para os Estados Unidos, confirmadas à Reuters por fontes próximas ao parlamentar e do governo americano.

O episódio surpreendeu inclusive aliados políticos. Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, esperava que o senador assumisse a liderança da oposição depois de receber quase 60 milhões de votos.

Foi uma decisão de autoproteção? Uma estratégia política? Uma tentativa de construir internacionalmente uma narrativa de perseguição?

Ainda não temos elementos suficientes para responder.

O fato de existir uma investigação não significa que Flávio seja culpado. Mas seu descumprimento de uma determinação judicial também não pode ser ignorado por quem defende o respeito às instituições.

Essa coerência precisa valer para todos.

O Supremo e os limites do poder

Também não podemos ignorar os questionamentos sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal.

As decisões de Alexandre de Moraes, especialmente em processos envolvendo lideranças políticas, alimentam discussões legítimas sobre proporcionalidade, ampla defesa e concentração de poderes.

A Justiça precisa ter liberdade para investigar, mas deve exercer essa autoridade dentro dos limites constitucionais.

A Venezuela demonstra as graves consequências que podem surgir quando a independência judicial é comprometida. Lá, a repressão a opositores, as prisões políticas e o exílio de dirigentes estão amplamente documentados.

Isso não significa que o Brasil esteja vivendo a mesma realidade. Comparações históricas exigem responsabilidade.

O que não podemos admitir é que a defesa do Estado de Direito se transforme em uma questão de conveniência política. Não devemos aceitar abusos contra adversários, nem justificá-los quando atingem aqueles com quem nos identificamos.

Uma nova liderança pode surgir

A saída de Flávio também abre uma discussão sobre o futuro da oposição.

Tarcísio de Freitas já aparece nas movimentações políticas como um dos nomes capazes de assumir maior protagonismo. Outros governadores e parlamentares poderão ocupar espaços nessa reorganização.

Não sabemos ainda se a fuga fortalecerá a imagem de Flávio entre seus apoiadores ou se representará um obstáculo à continuidade de sua liderança.

A concessão de vistos pelo governo americano acrescenta uma dimensão internacional ao episódio, mas não significa reconhecimento de asilo político nem comprova perseguição.

O afastamento de uma liderança pode produzir diferentes consequências. Pode preservar sua influência, enfraquecê-la ou favorecer o surgimento de outros representantes.

Mas nenhuma dessas possibilidades deve ser confundida com um resultado já definido.

O que me parece fundamental é que a representação conservadora não dependa exclusivamente de um sobrenome.

Uma nova liderança precisa ser examinada por suas propostas, capacidade administrativa, compromisso institucional e disposição para dialogar com uma sociedade que não pensa de maneira uniforme.

O conservadorismo depois das urnas

Volto, então, ao meu artigo anterior.

Continuo convencido de que não basta declarar-se conservador, defender a família, a liberdade ou a responsabilidade fiscal. É necessário demonstrar esses valores nas atitudes.

Ser conservador não significa concordar automaticamente com todos os políticos da direita. Também não significa rejeitar qualquer iniciativa de um governo progressista, independentemente de seus resultados.

O Brasil precisa de instituições respeitadas, segurança jurídica, responsabilidade com o dinheiro público, liberdade e políticas capazes de melhorar a vida das pessoas.

Essas necessidades permanecem depois de qualquer eleição.

Talvez a maior reflexão destes últimos dias seja justamente esta: precisamos separar nossas convicções da trajetória individual daqueles que, em determinados momentos, dizem representá-las.

O conservadorismo brasileiro não começou com Jair Bolsonaro e não terminará com Flávio Bolsonaro. Suas ideias e valores são anteriores a ambos.

O país também não se resume à disputa entre Lula e Bolsonaro.

Se uma nova liderança nascer dessa crise, será necessário observar não apenas quem ocupará o espaço político, mas o que pretende fazer com ele.

Meu compromisso continua sendo com os princípios que defendi antes da eleição. E isso inclui a disposição de questionar tanto o poder de quem governa quanto as decisões daqueles que se apresentam como alternativa.

Porque a responsabilidade política não termina nas urnas.

Na verdade, é depois delas que começa a ser verdadeiramente testada.


Rodini Netto
Coluna do Rodini | Meandros da Política

Com informações de: Reuters, Agência Brasil, CNN Brasil e RFI.


As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade do autor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *