O domingo poderá definir os rumos políticos do Brasil pelos próximos quatro anos. Mas, para a direita, há algo que precisa estar acima da vitória eleitoral: a responsabilidade de transformar suas convicções em compromisso verdadeiro com o país.

Por Rodini Netto | Coluna Meandros da Política

23 de outubro de 2026

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para escolher seu próximo presidente da República. Depois de uma campanha marcada pela polarização, por disputas intensas e por uma sociedade profundamente dividida, chegamos a um momento em que é preciso falar de algo que considero essencial: a responsabilidade política da direita brasileira.

E quero começar com uma afirmação que talvez desagrade a alguns: não basta ser de direita, declarar-se conservador ou apresentar-se como defensor da família, da liberdade e dos valores tradicionais. É necessário demonstrar, nas atitudes, que essas convicções significam alguma coisa.

A direita brasileira cresceu, conquistou espaço, mobilizou milhões de cidadãos e deixou de ocupar uma posição secundária no debate nacional. Entretanto, o crescimento político também trouxe responsabilidades que não podem ser ignoradas.

Não podemos continuar reduzindo a política a uma disputa de personalidades, como se a vitória de um candidato, por si só, fosse suficiente para resolver os problemas estruturais do Brasil.

O país é muito maior do que qualquer liderança política.

A direita precisa amadurecer

Durante muito tempo, parte da direita brasileira se acostumou a ocupar uma posição predominantemente reativa. Era mais fácil apontar os erros da esquerda do que apresentar alternativas consistentes.

Mas denunciar os equívocos de um adversário não constitui, necessariamente, um projeto de governo.

O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, segurança jurídica, respeito à propriedade privada, valorização do trabalho, combate efetivo à corrupção e fortalecimento das instituições. Precisa, igualmente, de educação de qualidade, saúde pública eficiente, segurança e oportunidades reais para aqueles que dependem das políticas públicas.

Essas questões não podem permanecer apenas no discurso eleitoral.

Quem defende um Estado mais eficiente precisa demonstrar como pretende construí-lo. Quem critica os desperdícios do dinheiro público deve exigir transparência também dos políticos com os quais se identifica.

E quem defende valores morais precisa compreender que a moralidade não pode ser uma exigência reservada exclusivamente aos adversários.

Não existe corrupção aceitável porque foi praticada por alguém do nosso campo político. Não existe incompetência justificável porque o responsável compartilha das nossas convicções.

A coerência é uma obrigação, não uma conveniência.

Conservadorismo não pode ser apenas uma bandeira eleitoral

Considero especialmente importante refletir sobre o significado do conservadorismo neste momento.

Ser conservador não deveria representar uma resistência automática a todas as mudanças, assim como também não pode significar uma adesão incondicional a qualquer liderança que utilize determinados símbolos ou expressões.

Conservar exige reconhecer aquilo que possui valor. A família, a liberdade religiosa, a responsabilidade individual, o respeito às leis e a importância das comunidades precisam encontrar correspondência na prática política.

E isso começa pelo respeito às pessoas.

Uma direita verdadeiramente comprometida com princípios não precisa abandonar suas convicções para reconhecer a dignidade de quem pensa de maneira diferente.

Também não precisa transformar cada divergência em uma guerra permanente.

É possível defender posições firmes sem abrir mão da civilidade. É possível combater projetos políticos que consideramos equivocados sem transformar adversários em inimigos pessoais.

Aliás, considero que essa capacidade será uma das maiores provas de maturidade da direita brasileira nos próximos anos.

A responsabilidade também é nossa

Há outro aspecto que não podemos ignorar.

É comum responsabilizarmos os políticos por praticamente todos os problemas nacionais. Entretanto, muitas vezes esquecemos que a qualidade da representação política também depende do comportamento dos cidadãos.

Cobramos honestidade, mas nem sempre a praticamos nas pequenas decisões cotidianas. Exigimos competência, mas por vezes tratamos a fidelidade partidária como mais importante do que a capacidade de administrar. Defendemos a liberdade de expressão, mas encontramos dificuldades para aceitar críticas dirigidas às nossas próprias lideranças.

Essa contradição precisa ser enfrentada.

A democracia não pode ser reduzida ao ato de votar a cada quatro anos. O acompanhamento das decisões governamentais, a fiscalização dos gastos públicos, a participação comunitária e a cobrança por resultados também integram a responsabilidade de quem deseja um país melhor.

Não podemos exigir mudanças profundas da política nacional enquanto reproduzimos, em nossos municípios, os mesmos comportamentos que criticamos em Brasília.

O dia seguinte será tão importante quanto o domingo

A eleição presidencial coloca frente a frente dois projetos políticos distintos, representados por Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

O resultado será definido nas urnas, mas nenhuma vitória eleitoral representará um cheque em branco.

Se a direita conquistar a Presidência da República, terá a responsabilidade de transformar suas propostas em resultados concretos. Precisará governar com seriedade, respeitar as instituições, administrar conflitos e demonstrar que sua capacidade de governar corresponde à confiança recebida.

Se não conquistar, continuará tendo a responsabilidade de exercer uma oposição firme, legítima, fiscalizadora e comprometida com o interesse público.

Em qualquer dessas circunstâncias, haverá algo que considero inegociável: o respeito à vontade soberana do eleitorado e às regras constitucionais.

A força de um movimento político não pode ser medida exclusivamente pelo resultado de uma eleição. Ela também se revela na capacidade de preservar seus princípios diante de vitórias e derrotas.

O Brasil precisa de mais do que vencedores

Tenho convicções conservadoras e não considero necessário escondê-las para exercer minha atividade de análise política.

Mas também entendo que defender essas convicções exige responsabilidade intelectual e disposição para reconhecer erros, inclusive quando cometidos por aqueles com quem compartilhamos ideias.

Não acredito em uma direita que se limite a reproduzir palavras de ordem.

Acredito na importância de uma direita preparada para discutir economia, administração pública, desenvolvimento regional, educação, segurança, liberdade e justiça com seriedade.

Uma direita que compreenda que os brasileiros não vivem apenas dos debates travados nas redes sociais.

Vivem do salário que precisa chegar ao fim do mês, do preço dos alimentos, das condições das estradas, da segurança de suas famílias e do atendimento que recebem nos serviços públicos.

É sobre a vida real que a política precisa produzir resultados.

E é justamente nesse ponto que o discurso precisa encontrar a responsabilidade.

Minha reflexão final

O domingo será importante. Muito importante.

Mas a responsabilidade da direita não pode nascer apenas da expectativa de uma vitória e desaparecer diante das dificuldades que inevitavelmente surgirão.

Não podemos defender a honestidade apenas quando estamos na oposição. Não podemos exigir transparência somente dos nossos adversários. Não podemos falar em liberdade enquanto procuramos silenciar quem discorda de nós.

Também não podemos confundir lealdade política com submissão intelectual.

Precisamos compreender que nenhuma liderança, por mais popular que seja, substitui os princípios que afirmamos defender.

O Brasil não precisa apenas de uma direita capaz de vencer eleições. Precisa de uma direita suficientemente responsável para governar bem, suficientemente madura para reconhecer seus erros e suficientemente firme para preservar suas convicções sem abandonar a democracia.

No próximo domingo, os brasileiros farão suas escolhas.

Na segunda-feira, entretanto, continuará existindo um país inteiro esperando soluções.

E será diante dessa realidade, muito mais do que diante dos resultados eleitorais, que a direita brasileira demonstrará a verdadeira dimensão de sua responsabilidade.

Porque ganhar uma eleição pode representar uma conquista política. Mas merecer a confiança de uma nação é uma responsabilidade muito maior.


Rodini Netto – Meandros da Política — Opinião e Análise

As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade do autor.

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