Por Rodini Netto | Coluna do Rodini
O novo jingle de Lula, o resultado do primeiro turno e as três pesquisas mais recentes levantam uma pergunta que a propaganda eleitoral não responde.
A campanha de Lula encontrou uma expressão para embalar a reta final do segundo turno: “Bora virar”. O presidente lançou um jingle em ritmo de forró, chamou a música de “Hino da Vitória” e convocou seus apoiadores para a mobilização. No programa eleitoral de rádio, a mesma ideia já estava presente: era hora de virar votos.
Confesso que a escolha me chamou a atenção.
Afinal, quem pede para virar reconhece, pelo menos na linguagem da campanha, que existe alguma coisa a ser revertida. Não é uma declaração formal de derrota, evidentemente. É uma mensagem política. E mensagens políticas também revelam como os candidatos procuram posicionar suas campanhas diante do eleitorado.
O curioso é que Lula chegou ao segundo turno depois de ficar atrás de Flávio Bolsonaro nas urnas. No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente.
Portanto, havia realmente um resultado a ser revertido.
Mas a questão agora é outra: será que a música está acompanhando uma virada eleitoral ou tentando provocá-la?
Quatro pesquisas, uma mesma dúvida
Entre quarta-feira (14) e quinta-feira (15), quatro pesquisas nacionais ofereceram novos elementos para analisar essa disputa. A quarta, divulgada na noite de quinta, foi o Datafolha, depois que esta coluna havia sido inicialmente publicada.
A Quaest apresentou Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula. A diferença foi de dois pontos percentuais, dentro da margem de erro.
Nesta quinta-feira, a Palver mostrou Flávio com 50% e Lula com 49%. Novamente, empate técnico.
Por último, a Indexa/Broadcast registrou 44% para Flávio e 42% para Lula nas intenções de voto totais. Considerados apenas os votos válidos, os percentuais passam para 51% e 49%, respectivamente.
Datafolha: diferença encolhe, mas não há inversão
Na noite desta quinta-feira (15), o Datafolha registrou Flávio Bolsonaro com 47% e Lula com 45% dos votos totais. Nos votos válidos, o resultado foi de 51% a 49%, respectivamente. O instituto ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios, entre os dias 13 e 14 de outubro, e informou margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-00466/2026.
A comparação com a rodada de 8 de outubro chama a atenção: naquela ocasião, Flávio tinha 49% dos votos totais e Lula, 45%. Agora, Flávio marca 47% e Lula permanece com 45%. A diferença numérica, portanto, caiu de quatro para dois pontos, mas isso não significa que Lula tenha ultrapassado o adversário. Nos votos válidos, o placar passou de 52% a 48% para 51% a 49%.
O novo Datafolha torna a provocação do jingle ainda mais interessante: a distância diminuiu, mas a desejada virada ainda não apareceu nesse levantamento. A queda numérica de Flávio na rodada, por si só, também não demonstra uma tendência definitiva; os resultados oscilam dentro da margem de erro.
Os quatro levantamentos — Quaest, Palver, Indexa/Broadcast e Datafolha — apresentam Flávio numericamente à frente, mas nenhum deles demonstra vantagem estatisticamente conclusiva diante das margens de erro. São pesquisas independentes, realizadas com metodologias diferentes, e seus resultados não devem ser tratados como uma única amostra.
É preciso reconhecer os dois lados dessa informação.
A campanha de Flávio não pode tratar diferenças tão pequenas como garantia de vitória. Da mesma forma, a campanha de Lula não pode apresentar uma virada nas pesquisas como fato consumado.
Estar perto não é a mesma coisa que estar à frente. E aparecer numericamente à frente não significa ter a eleição decidida.
Quando a música revela a estratégia
Há uma diferença entre uma campanha que trabalha para conservar votos e outra que concentra esforços na conquista de novos eleitores.
Flávio iniciou o segundo turno com a vantagem objetiva de ter recebido mais votos na primeira etapa. Lula, por sua vez, precisa ampliar seus apoios para inverter aquele resultado.
Nesse contexto, o “Bora virar” faz sentido como instrumento de mobilização.
A música procura transmitir entusiasmo, criar identificação e convencer o eleitor de que uma mudança no resultado é possível. É uma estratégia compreensível de comunicação eleitoral.
Mas existe uma ironia política nessa escolha: ao insistir na ideia de virada, a propaganda também chama atenção para a posição de onde a campanha está tentando sair.
Lula não está fazendo campanha para preservar o resultado do primeiro turno. Está fazendo campanha para modificá-lo.
Isso não é apenas uma interpretação sobre a letra de uma música. É consequência do resultado oficial de 4 de outubro.
O grande desafio está fora do refrão
A dez dias da votação, o desafio dos candidatos é convencer aqueles eleitores que ainda podem mudar de escolha, comparecer às urnas ou deixar de votar em branco e nulo.
Não será um refrão que determinará o resultado.
As pesquisas mostram um eleitorado dividido, candidaturas com rejeições elevadas e uma disputa em que diferenças relativamente pequenas podem ter importância decisiva. Mas também revelam que seria precipitado anunciar um desfecho.
O eleitor precisa distinguir entusiasmo de evidência. Campanhas eleitorais são feitas para convencer. Pesquisas são instrumentos para medir intenções de voto. E as urnas, no dia 25 de outubro, serão responsáveis por apresentar o resultado.
O jingle de Lula foi batizado de “Hino da Vitória”. É uma escolha da campanha. Mas, até aqui, o que existe é um pedido de virada, não a comprovação de que ela aconteceu.
E essa é a pergunta que fica.
Bora virar… será que vira?
Por enquanto, a música já está tocando. O resultado, porém, continua em aberto.
Rodini Netto — Coluna do Rodini, Meandros da Política
Com informações de Poder360, CNN Brasil, Reuters, UOL e Folha de S.Paulo. Análise baseada nas pesquisas Quaest, Palver e Indexa/Broadcast, divulgadas em 14 e 15 de outubro de 2026.




Deixe um comentário