EDITORIAL | 12 DE OUTUBRO DE 2026
Entre acordos de última hora, mudanças de discurso e interesses eleitorais, a coerência parece ser a primeira vítima da disputa pelo poder.
O primeiro turno terminou. As urnas falaram. E, como acontece em praticamente todas as eleições brasileiras, começou o espetáculo das conveniências.
Políticos que até ontem se apresentavam como adversários descobrem afinidades inesperadas. Discursos inflamados são esquecidos, diferenças ideológicas desaparecem e antigas convicções passam a ser tratadas como detalhes sem importância.
Tudo em nome da governabilidade, dizem alguns. Da democracia, justificam outros. Na verdade, muitas dessas movimentações têm um nome bem mais simples: sobrevivência política.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, marcada para o próximo dia 25, coloca o Brasil diante de duas propostas distintas de poder. Mas também expõe uma velha doença da nossa política: a incapacidade de muitos dirigentes de permanecerem fiéis àquilo que defenderam diante dos eleitores.
É especialmente preocupante quando representantes eleitos por partidos de orientação conservadora passam a apoiar projetos políticos que contrariam princípios defendidos durante suas campanhas. O mesmo vale para qualquer político que abandone suas convicções apenas porque mudou a perspectiva de poder.
Ninguém é obrigado a concordar eternamente com um partido. A liberdade de pensamento é indispensável à democracia. Mas existe uma diferença enorme entre mudar de opinião por convicção e negociar posições por conveniência.
O eleitor tem o direito de conhecer essa diferença.
O Brasil não precisa de mais políticos que se declarem conservadores durante a campanha e esqueçam seus princípios na primeira oportunidade. Tampouco precisa de discursos em defesa dos trabalhadores que terminem servindo apenas à preservação de estruturas partidárias.
A direita precisa compreender que conservadorismo não pode ser apenas um rótulo eleitoral. Deve representar compromisso com liberdade, responsabilidade fiscal, segurança jurídica, respeito à família e limitação do poder estatal.
E a esquerda precisa compreender que justiça social não pode ser confundida com dependência política, nem programas assistenciais podem ser usados como substitutos de uma política econômica capaz de gerar prosperidade.
Não se trata de exigir unanimidade. Trata-se de exigir coerência.
Na eleição de outubro, o eleitor não deve observar apenas os candidatos à Presidência. Deve prestar atenção também nos prefeitos, vereadores, deputados e dirigentes partidários que agora correm para escolher um lado.
Quem apoia quem? Por quê? Em nome de quais compromissos? E, principalmente, o que espera receber em troca?
São perguntas legítimas que uma democracia madura não deveria ter receio de fazer.
O problema do Brasil não é a existência de políticos de direita ou de esquerda. É a quantidade daqueles que não hesitam em abandonar qualquer princípio para continuar próximos do poder.
No próximo dia 25, o eleitor terá a palavra novamente.
Seria bom que, desta vez, a memória política não terminasse na porta da seção eleitoral.
Porque o voto pertence ao cidadão. Não aos partidos, aos prefeitos, aos deputados ou aos negociadores de bastidores.
E uma democracia que troca convicções por conveniências corre o risco de transformar a representação popular em um simples balcão de negócios.
Rodini Netto
Meandros da Política




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