Por Rodini Netto — Coluna do Rodini | 9 de outubro de 2026

Lula mudou de comportamento. O discurso ficou mais agressivo, os ataques a Flávio Bolsonaro se intensificaram e o governo passou a acumular anúncios de benefícios, crédito e desonerações em plena campanha eleitoral.

É uma coincidência que merece atenção.

Primeiro, veio o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o mínimo de R$ 600 para R$ 691. Os novos pagamentos começam em 19 de outubro, apenas seis dias antes do segundo turno. O governo diz que está repondo a inflação acumulada desde 2023. Está correto. Mas por que essa recomposição veio justamente agora?

Nesta sexta-feira, 9 de outubro, a nova medida foi zerar os impostos federais sobre a gasolina por 30 dias, ampliando a desoneração para R$ 0,89 por litro. Somados os benefícios anunciados para gasolina, etanol e diesel, o custo estimado chega a R$ 5,2 bilhões.

E não para por aí.

Gás do Povo, Minha Casa Minha Vida, novas linhas de crédito para caminhoneiros, taxistas, motoristas de aplicativos e produtores rurais, renegociação de dívidas pelo Desenrola e propostas de ampliação de benefícios.

Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, divulgado em 28 de setembro, 22 medidas anunciadas neste ano já envolviam R$ 215,6 bilhões em recursos mobilizados. É importante esclarecer: esse valor inclui financiamentos, garantias e outras operações, não apenas dinheiro gasto pelo Tesouro.

Mas os números mostram a dimensão das iniciativas anunciadas em ano eleitoral.

O problema não é ajudar quem precisa. O problema é transformar a proximidade de uma eleição no momento escolhido para concentrar anúncios de forte apelo popular.

Enquanto os benefícios aparecem, o discurso presidencial endurece. Lula passou a explorar com maior intensidade o receio de que uma vitória adversária provoque cortes em programas sociais.

Nesta sexta-feira, o TSE determinou, em decisão liminar, a retirada de um vídeo da campanha petista que associava propostas de Flávio Bolsonaro à perda de benefícios, por considerar insuficiente o respaldo objetivo da afirmação.

Criticar propostas econômicas é legítimo. Apresentar consequências não demonstradas como certezas é outra história.

Também é preciso reconhecer que os preços internacionais do petróleo pressionam os combustíveis e que o reajuste do Bolsa Família possui fundamento legal. Isso, porém, não elimina o dever de questionar o momento das decisões, seus custos e seus efeitos sobre as contas públicas.

Quem defende responsabilidade fiscal não pode aceitar que a avaliação dessas medidas se limite ao anúncio do benefício. É preciso discutir sua sustentabilidade. E essa cobrança deve valer para qualquer governo, seja de direita ou de esquerda.

Na minha avaliação, o conjunto revela uma campanha que mudou de estratégia depois do primeiro turno: menos defesa dos resultados acumulados, mais confronto político e maior destaque às medidas de efeito imediato.

Lula governa há quase quatro anos. A pergunta é inevitável: por que tantas medidas de apelo popular se concentram justamente no período em que ele mais precisa de votos?

Benefícios sociais são necessários. Alívio nos preços também. Mas nenhum presidente deveria receber um cheque em branco para administrar recursos públicos sem ser questionado sobre prioridades, custos e resultados.

A política nua e crua é esta: o discurso de campanha termina no dia da eleição, mas as decisões tomadas pelo governo continuarão produzindo efeitos.

O benefício pode chegar antes do voto. A conta não desaparece depois dele.

Rodini Netto — Coluna do Rodini | Meandros da Política

Fontes de apuração: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (Bolsa Família, 17/9/2026); Folha de S.Paulo (levantamento de medidas, 28/9/2026, e combustíveis, 9/10/2026); notícias da decisão do TSE publicadas em 9/10/2026. Texto opinativo.

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