Há vereadores que gostam de lembrar, principalmente quando isso lhes é conveniente, que foram eleitos e que são representantes do povo.
Em algumas ocasiões, essa afirmação deixa de ser uma lembrança democrática e passa a funcionar como uma verdadeira “carteirada”. É como se os votos recebidos colocassem o parlamentar acima das críticas, das perguntas e da fiscalização pública.
Entretanto, basta que o nome de alguns deles apareça em uma matéria jornalística para que a conversa mude de tom. A fiscalização passa a ser chamada de perseguição. A pergunta vira provocação. A cobrança pública é tratada como ofensa pessoal.
Existe uma contradição evidente nessa postura.
Quem se apresenta como representante da população precisa aceitar que será observado, questionado e cobrado por ela. Vereadores são agentes públicos. Suas votações, declarações, decisões, posicionamentos e até seus silêncios diante de questões importantes interessam à sociedade.
A publicidade não é um inconveniente do mandato. Ela faz parte do cargo.
O mesmo vereador que gosta de aparecer em solenidades, fotografias, entrevistas, inaugurações e publicações nas redes sociais precisa compreender que essa visibilidade não existe apenas para divulgar aquilo que lhe é favorável.
Quem deseja os holofotes para receber aplausos também precisa aceitá-los quando surgem perguntas.
O jornalismo responsável não precisa pedir autorização a nenhum vereador para citar seu nome em uma matéria. Precisa trabalhar com fatos, documentos, contexto, responsabilidade e respeito ao direito de resposta.
Fiscalizar não significa condenar antecipadamente. Fazer perguntas não é perseguição. Publicar fatos de interesse coletivo não constitui ataque pessoal.
Vereador não é autoridade intocável. Também não é proprietário do mandato que exerce.
O mandato pertence à sociedade e é ocupado temporariamente por quem recebeu a confiança dos eleitores. Essa confiança, porém, não concede imunidade contra perguntas, críticas ou averiguações jornalísticas.
Quando um agente público tenta intimidar jornalistas, desqualificar uma reportagem sem apresentar fatos que a contestem ou usar o título de “representante do povo” como escudo contra questionamentos, demonstra não compreender plenamente a responsabilidade que acompanha a função pública.
Também não se pode aceitar a velha estratégia da conversa “ao pé da orelha”, da ameaça educada de processo ou do recado enviado por terceiros. Quando parte de um agente público e tem como objetivo constranger o trabalho jornalístico, isso possui nome: tentativa de intimidação.
E intimidação contra a imprensa não pode ser tratada como uma conversa entre bons amigos.
Se uma informação estiver errada, o vereador pode apresentar documentos, solicitar correção e exercer seu direito de resposta. Esses são instrumentos legítimos e democráticos.
O que não pode é querer apenas a publicidade favorável e considerar abusiva toda matéria que lhe cause desconforto.
Quem escolhe a vida pública escolhe também a exposição pública. Aqueles que não sabem conviver com críticas, perguntas e averiguações deveriam refletir seriamente se estão preparados para ocupar um cargo político.
Enquanto exercerem seus mandatos, vereadores serão — e devem ser — permanentemente fiscalizados pela sociedade e pela imprensa.
Não por capricho de jornalistas. Não por perseguição política. Não por interesse pessoal.
Mas porque fiscalizar o poder é uma obrigação democrática.
Mandato concede responsabilidade. Não concede imunidade contra perguntas.
E nenhuma carteirada parlamentar fará a imprensa abrir mão de sua obrigação de investigar, questionar e informar.
Rodini Netto
Meandros da Política — A política nua e crua!
E se é pra dar carteirada: Jornalista, DRT-PR 7294, membro efetivo da ABI Associação Brasileira de Imprensa, filiado ao Sindijor PR (Sindicato dos Jornalistas do Paraná). Tecnólogo em Gestão Pública (possui CRA-PR). MBA em Gestão de Cidades. Servidor Público Municipal.